segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Fundado em 1934 por António Torres, o GRUPO DOS SARGACEIROS DA CASA DO POVO DE APÚLIA é um representante ímpar do Folclore Português, quer pelas suas danças, quer pelo traje característico.

Ao longo dos seus 68 anos de existência tem sido considerado um dos grupos portugueses de maior autenticidade, pelo que a sua presença se tornou requisitada nos melhores festivais folclóricos deste país.

É membro efectivo da Federação do Folclore Português, está filiado no Inatel, e é Medalha de Mérito Cultural da Câmara Municipal de Esposende. Recebeu na Costa da Caparica, em 11 de Junho de 2000, das mãos do Senhor Secretário de Estado da Segurança Social, o "Troféu de Qualidade", primeiro prémio do Programa "Turismo Sénior 1999/2000", do Inatel, por ter sido classificado como o melhor Agrupamento Etnográfico.

A sua actividade no estrangeiro estendeu-se a Espanha, França, Bélgica, Brasil, Suíça e muitos outros países.

O sargaceiro não é um homem do mar, mas antes o agricultor que trabalha dia-a­dia no amanho das suas terras. Mas, quando surge a "mareada", volta costas à terra e, então, é vê-lo correr praia fora, mar dentro, as pregas da branquêta ondeadas pela marcha, lembrando o perfil de um guerreiro romano.

Enfia-se no mar, com água até à cintura, arrancando o sargaço às ondas encapeladas, numa tarefa árdua e perigosa que exige grande destreza de manejo e grande sangue-frio, para enfrentar as vagas. E assim, o sargaço, um composto de várias espécies de algas marinhas, depois de seco, é utilizado pelo agricultor-sargaceiro como fertilizante das suas colheitas.

Em tempos idos, enquanto esperavam que o sargaço desse à costa - isto é o momento do "assejo" - a gente nova cantava e dançava na areia da praia, com a alegria tão característica das gentes da beira-mar.

Ao qual eu faço parte....tocando concertina...

Entre as diversas algas que, em conjunto, se designam por "sargaço", as mais frequentes no mar de Apúlia pertencem ao grupo das Feofícias, cuja designação corrente é de bodelha, botelho bravo, cintas, cordas ou correolas, folha de Maio, e taborra. Do grupo das Rodofícias apenas aparecem as algas vermelhas, conhecidas vulgarmente por guia ou francelha.

São todas aproveitadas na agricultura, quer como fertilizantes, quer como produtos fito-sanitários.

A taborra, contudo, porque tem um alto teor de água é, normalmente, separada das outras espécies e utilizada em "verde", isto é, imediatamente após a apanha, sem ser submetida ao processo de secagem. É, por isso, usada essencialmente como fertilizante de prado, ou misturada na terra lavrada, antes de qualquer cultura ou sementeira.

As algas vermelhas, depois de secas, são aproveitadas em farmácia e em cosmética e, ainda, nas indústrias de agar-agar e de plásticos.

Muito rico em cal, potássio, ácido fosfórico e azoto, o sargaço constitui um excelente adubo natural. Com a sua secagem o teor daquelas substâncias sobe consideravelmente, e apenas a água diminui em cerca de sessenta por cento.

Maria da Conceição Matos, em quadro comparativo, apresenta os valores do sargaço "verde" ou fresco, e seco.

Composição do Sargaço Fresco e Seco (%)

Mas o sargaço, com o seu extraordinário potencial biodinâmico, está subaproveitado devido ao desconhecimento de muitas das suas propriedades, e ao uso generalizado de produtos agro-químicos. Daí que só em Apúlia a apanha do sargaço assuma papel tão relevante, sendo tradicionalmente conhecida por "terra dos sargaceiros".

Contudo, os técnicos agrícolas começam a reconhecer a necessidade de reduzir o uso de químicos no solo. Reconhecem, também, que o sargaço aumenta a resistência das culturas às doenças e parasitas, e melhora o sabor dos frutos e legumes, favorecendo a precocidade e abundância das culturas. É que, ao entrar em decomposição, na terra, faz aumentar consideravelmente a temperatura da fermentação aeróbica, e acelera a biodegradação de estrumes e folhas mortas, melhorando os solos demasiado ácidos, e tornando férteis extensas áreas arenosas e improdutivas.

A longa permanência dentro de água fria provoca, necessariamente, o arrefecimento do corpo.. Pensa-se que tenha sido esta a razão que levou o sargaceiro a adoptar a fazenda de pura lã, na sua côr natural, para a confecção da indumentária que usa na faina do mar.

Branqueta é o nome que designa o casaco de abas largas, tipo saio romano, até meio da coxa, cingido ao corpo até à cintura e alargando para baixo, em forma de saiote, de modo a deixar inteiramente livres os movimentos das pernas. É abotoado de alto a baixo por pequenos botões do mesmo tecido, grosseiramente feitos em "boneca" e remata, no pescoço, com gola baixa. As mangas são compridas e justas ao braço. A gola, os punhos e as frentes são debruados com pesponto grosso e largo, geralmente duplo ou triplo, formando barra. Sobre o peito, à esquerda, alguns sargaceiros fazem bordar, sempre com a mesma linha grossa e forte do pesponto, a sua inicial, ou qualquer outra sigla que o identifica. À cintura o sargaceiro usa largo cinto preto, de cabedal.

A branqueta é toda confeccionada à mão, com linha resistente, para suportar o embate das ondas.

Na cabeça o sargaceiro usa o SUESTE , espécie de capacete romano, com copa de quatro gomos reforçados e duas palas: uma, curta, na frente, e outra, mais larga e comprida, atrás. Deste modo é-lhe possível "furar" as ondas alterosas sem que a água lhe molhe a cabeça e o pescoco, e lhe penetre nas costas. Feito do mesmo tecido da branqueta, passa por diversas fases de impermeabilização e é, por fim, pintado com tinta branca. No cimo da copa leva, pintada a vermelho, uma cruz, e dos lados o nome de Apúlia e qualquer outra referência ao gosto do proprietário, habitualmente uma data.

A textura da branqueta que, como já foi dito, é de pura lã, permite ao sargaceiro permanecer várias horas molhado mas conservando a temperatura normal do corpo, enquanto se mantém em actividade.

A mulher sargaceira assume um papel secundário durante a mareada, já que o trabalho árduo e perigoso de enfrentar as ondas é da exclusiva responsabilidade do homem. Por isso a sua indumentária é mais delicada e, normalmente, apenas entra no mar com água até ao joelho, para ajudar o homem a arrastar para terra o galhapão cheio de sargaço arrebatado ao mar. Assim, ela veste saia rodada, do mesmo tecido da branqueta, bem cingida à anca por larga faixa preta, sarjada, e blusa branca, de linho. Um colete adamascado preto, sem mangas, e bordado a linha de seda em cores garridas, envolve-lhe o tronco e protege-lhe o peito. Na cabeça usa lenço de merino.

Quando sai de casa põe, nas costas, um xaile de merino à moda do Minho e, na cabeça, um pequeno chapéu preto, de feltro, de copa baixa, redonda e de abas estreitas, que leva, na frente, uma pequena moldura de prata, habitualmente com um espelho. Mas, sempre que a sargaceira está "comprometida" ou casada, retira o espelho da moldura e, no seu lugar, coloca a fotografia do seu amado; se mantém o espelho no chapéu é sinal de que é livre e "descomprometida".

A evolução dos tempos modernos, o aparecimento das máquinas agrícolas, a agitação da vida actual, fizeram com que a branqueta do sargaceiro e a indumentária da sargaceira fossem substituídas, nas "mareadas" da apanha do sargaço, por prosaicos e inestéticos casacos de oleado, para desencanto de tantos visitantes que demandam Apúlia para admirarem os sargaceiros.

Com o Grupo dos Sargaceiros da Casa do Povo de Apúlia está assegurada a preservação da indumentária tradicional da apanha do sargaço, já que existe a preocupação de respeitar a sua autenticidade nos menores detalhes.

Os utensílios





A apanha do sargaço processa-se de duas formas: de pé, fora ou dentro de água, até onde for possível penetrar no mar, e a bordo de embarcações.

No segundo caso utiliza-se o arrastão, constituído por um saco de rede com dois ou três metros de comprido, cuja abertura é uma armação de ferro em forma de rectângulo, por onde entra o sargaço que se vai depositando no seu interior, enquanto o barco se desloca. Os homens largam o arrastão, segurando-o por um cabo, e seguem remando até que fique cheio. Despejam-no, então, no fundo do barco, e repetem a operação.

Este processo está hoje quase abandonado, até porque as "mareadas" de pé proporcionam abundância de sargaço e são de mais fácil e directa execução.

Na faina da praia, isto é, na apanha do sargaço de pé, é usado o galhapão, um saco de rede de fio de sisal grosso e de malha larga (quatro a cinco centímetros), normalmente com dois metros e vinte centímetros de comprido, e preso a um arco de meia volta,de madeira de loureiro, carvalho ou salgueiro, cujas pontas são ligadas por um cordão, mantendo firme a sua curvatura, de cerca de metro e meio. Um cabo forte, de madeira, com cerca de dois metros de comprido, segura o galhapão, a meio do arco.

É este o utensilio principal da actividade da apanha do sargaço, e é com ele que o sargaceiro enfrenta as ondas do mar e, assim, arrebata as algas nelas envoltas.

Se o sargaço está mais denso e próximo da praia, e sobretudo se a maré não for muito viva, é também utilizada a graveta ou gaiteira, utensílio todo feito em madeira, de "dentes" e com "costa" de cerca de noventa centímetros de comprido à qual se prendem, por baixo, vinte "dentes" de trinta centímetros e, na horizontal, outros dez "dentes", estes mais pequenos, designados por "gaiteiros". O cabo da graveta ou gaiteira é preso a meio da "costa", e mede cerca de dois metros.

Com a graveta ou gaiteira o sargaceiro recolhe as algas que vai depositando no areal, fora do alcance das vagas. E é daqui que as mulheres, com as carrelas, transportam o sargaço para mais longe do mar, e o espalham em "camas" onde ficará a secar.

A carrela é uma espécie de padiola de madeira de punho, com cerca de metro e meio de comprido por sessenta centímetros de largo, cujas "pernas" são ligadas por cinco paus redondos, formando o lastro.

Galhapão, Graveta e Carrela são os utensílios indispensáveis na faina do sargaço que, ao contrário de outros, continuam, ainda hoje, a ser utilizados pelos sargaceiros.





terça-feira, 6 de novembro de 2007

Alcinda

Coordenadora: Laurentina Torres

Presidente: Elisabete Maria Oliveira

Director: Isidro Reina


O nome de Apúlia surgiu quando os romanos chegaram à Apúlia e repararam que esta terra era parecida com a Apúlia de Itália e então decidiram dar o nome da terra deles a esta terra....É por isso que existe Apúlia portuguesa e Apúlia italiana.....

A roupa do guerreiro romano e idêntica à do homem sargaceiro, foram eles que deram o traje ao guerreiro romano.......


Ligado ao mar e ao sargaço, o folclore, em Apúlia, assume características muito específicas, e únicas no litoral português.

Aqui, o agricultor-sargaceiro, sempre que o movimento das marés prenuncia a aproximação de uma boa "mareada", larga toda a sua actividade nos campos e vai para a praia. Mas, por vezes, a espera pelo "assejo" - o momento exacto em que o mar arroja a terra as primeiras algas dando lugar, então, ao ínicio da "mareada" - pode ser longa, e há que preencher esses tempos mortos.

A expectativa de mais um dia grande e enriquecedor, torna as pessoas alegres e folgazãs, e todos dão largas à ansiedade que os possui. Logo aparece alguém a tocar concertina, outros cavaquinho, viola, ferrinhos, bombo e reque-reque e a festa acontece. Homens e mulheres, principalmente os mais novos, juntando-se aos pares, ou em roda, cantam e dançam com a alegria bem característica das gentes da beira-mar. Decorrido algum tempo é necessário prestar atenção ao mar, não vá o lençol de sargaço ter-se já aproximado de terra, e o "assejo" estar iminente. Pára a dança. As mulheres sentam-se, lânguidamente, na areia da praia; os homens, de pé, observam atentamente o comportamento do mar. Se o lençol de sargaço que se vai formando ao longe ainda demora a aproximar-se da costa, a dança recomeça com a mesma alegria e vigor. Até que, a determinado momento, alguém grita a plenos pulmões "ARGAÇO" - e a festa acaba ali para dar lugar à "mareada" - quatro horas de labuta constante, no afã de ser arrecadado todo o sargaço possível.

Cada homem, munido do "galhapão" ou da "graveta" corre para o mar, enfrenta as vagas, até onde lhe for possivel, sem colocar em risco a sua segurança, e vai arrecadando as algas nelas envoltas. A mulher retira o xaile e o chapéu, coloca-os em lugar resguardado, sobre a areia, e aguarda na borda do mar o momento de ajudar o sargaceiro que vem a terra com cada carga de sargaço.

A apanha do sargaço que, como se diz antes, assume em Apúlia características únicas, fez com que o sargaceiro fosse considerado, há longos anos, o ex-líbris do concelho de Esposende.

Em Agosto de 1934 realizava-se no Palácio de Cristal, no Porto, a GRANDE EXPOSICAO DO MUNDO PORTUGUÊS, onde deveriam fazer-se representar as províncias ultramarinas portuguesas e todos os concelhos do País. O concelho de Esposende enviou uma delegação composta por sessenta sargaceiros - trinta homens e trinta mulheres - por considerar a originalidade e autenticidade do traje que, tudo o indica, parece remontar ao período da ocupação da Península pelos romanos, e ainda pela actividade agro-marítima que representava: a apanha do sargaço.


The National Geographic Magazine February, 1938

E a delegação do concelho de Esposende a todos surpreendeu e encantou, pelo garbo dos homens e pela beleza das mulheres.

ANTÓNIO TORRES, responsável por aquela delegação, decidiu, então, dar-lhe continuidade. E assim foi fundado o "GRUPO DOS SARGACEIROS DE APÚLIA".

ANTÓNIO TORRES, à época Presidente da Junta de Freguesia, era um homem dotado para as letras e para a música e, por isso, amante e cioso da cultura tradicional da sua terra, lançou-se com entusiasmo na pesquisa e recolha das danças e cantares ligados a Apúlia e à apanha do sargaço, organizando, assim, o repertório do Grupo Folclórico, e que se mantém até aos dias de hoje, sem alterações nem plágios. Contou, para tal, com a ajuda do Conde de Villas Boas, então comandante do porto de Leixões, e do escritor e etnógrafo esposendense Manuel de Boaventura, dois grandes admiradores de Apúlia e dos sargaceiros.

Em 1940 é também fundada por aquele apuliense a Casa do Povo local, onde o Grupo Folclórico é integrado e passa a designar-se, até aos dias de hoje, "GRUPO DOS SARGACEIROS DA CASA DO POVO DE APÚLIA".


Lormes - Nevers - FRANÇA (1999)

Ponta do Sol - MADEIRA (2001)

Durante a sua já longa existência são numerosos os factos dignos de referência. Registam-se, no entanto, alguns que se consideram determinantes na vida dos "SARGACEIROS": Apuramento na l.a Olimpíada Europeia de Folclore, em 1956; 1.° Prémio da "Taça Abril em Portugal", em 1968; Medalha de Mérito Cultural da Câmara Municipal de Esposende, em 1993; Participações na Expo/98, em representação do Inatel, com o espectáculo "Evocação do Mar", e em representação da Área de Paisagem Protegida do Litoral de Esposende; "Troféu de Qualidade" do Inatel, em 2000; Deslocações a Espanha em 1973, 2000, 2001, 2003; a França em 1983,1984,1987, 1988, 1998, 1999; ao Brasil em 1992; à Bélgica em 1998; à Madeira em 2001.

É Membro Efectivo da Federação do Folclore Português, e Centro Cultural e Desportivo do Inatel (CCD), inscrito sob o N.° 3331.

Para assegurar, na população jovem, o gosto e orgulho por esta cultura própria, existe há vinte anos o Grupo Infantil, com cerca de sessenta crianças, de idades compreendidas entre quatro e doze anos, e que, em sessões semanais, vão aprendendo, a brincar, os usos e costumes tradicionais ligados à faina do sargaco, as danças e os cantares dos sargaceiros.

  • AS DANÇAS E OS CANTARES

Povoação localizada mais a sul da província do Minho e limite desta com o Douro Litoral, as danças detêm características de transição e revelam afinidades com as terras maiatas.

Adoptam, aqui, os nomes tradicionais Malhão, Chula, Cana-Verde, Vira, Vareira, Regadinho, etc. Mas nenhuma destas danças se identifica com outras de igual nome dançadas no Minho, no Douro ou nas Beiras.

Aqui, os passos de dança dos sargaceiros assemelham-se aos movimentos das ondas do mar, ora rápidas e alterosas, ora calmas e deslizando suavemente.

Assim, todas têm dois momentos: enquanto o cantador faz ouvir a sua voz, os dançadores movem-se devagar, em passos suaves, braços ao longo do corpo; quando o cantador se cala, para dar lugar ao coro, ou à música mais intensa, logo os braços se levantam e todos imprimem, então, à dança, celeridade e vigor, tal como o vai-vém das ondas do mar em maré viva.

O mar e o sargaço, o amor e a saudade, são uma constante nos cantares dos sargaceiros.

Na execução musical predomina o som da concertina, acompanhada dos cavaquinhos, viola braguesa e viola-baixo, ferrinhos, reque-reque e bombo.

    Por todo o País, e pelo estrangeiro, a sua actividade tem sido constante, quer em festivais, quer em representações etnográficas.
    É, reconhecidamente, um representante ímpar do folclore do litoral da Região do Baixo-Minho, quer pelas suas danças, quer pelo traje característico. É considerado, quer pelos etnógrafos, quer pela Federação do Folclore Português, um dos Grupos de maior autenticidade, pelo que a sua presença se torna requisitada nos maiores festivais de folclore do País. Pedro Homem de Mello escreveu: "Em Apúlia tudo é verdadeiro... até o traje".